Gastos públicos: a solução passa por otimização e foco, não por cortes arbitrários

Vinicius Brum
Vice-presidente para Saúde e Farma, Saneamento, Educação e Serviços Públicos da Falconi

Publicação: 03/04/2025 03:00

A gestão de gastos em governos e empresas segue princípios semelhantes. No setor privado, o aumento de despesas não raro é compensado pelo aumento de preços ou pela ampliação da base de consumidores. O governo adota estratégia similar: eleva impostos e expande a base arrecadatória. Na prática, no que diz respeito à estrutura de gastos, os setores público e privado funcionam da mesma forma e recorrem a soluções de mesma natureza.

Os números indicam que os gastos públicos no Brasil são elevados. Em 2023, foi registrado um aumento de 12,5% em relação ao ano anterior. Em 2024, algumas despesas, como a conta de diárias e passagens aéreas, cresceram 29%.  São percentuais que acendem o sinal de alerta, tratando-se do desenvolvimento sustentável do país. Quando os gastos públicos superam a capacidade de arrecadação e crescem em ritmo mais acelerado que a economia, o déficit fiscal se agrava, limitando investimentos produtivos e perpetuando a pobreza.

Projeções do FMI e do BTG indicam que o Brasil terá um déficit nominal de 8,6% do PIB em 2025, o segundo maior do mundo, atrás apenas da Bolívia. A atual crise deste cenário é insustentável. Contudo, o debate público se concentra no volume de gastos, mas fala-se pouco sobre qualidade da alocação de recursos. Porque há despesas necessárias para cumprir funções sociais do Estado que podem ser otimizadas sem comprometer a prestação de serviços.

No entanto, existem despesas sem valor agregado que bem poderiam ser eliminados: representam desperdícios que, no setor privado, se traduziram na redução das margens de lucro. Tratando-se de governo, significam uma maior carga tributária sobre a população. Estudos indicam que entre 15% e 25% dos gastos públicos são desnecessários. Reformas estruturais, adicionalmente, poderiam reduzir desperdícios em até 60% do orçamento.

Um caso prático em uma instituição legislativa mostrou que, ao focar na análise de valor das entregas, foi possível reduzir 55% de entregas que representavam desperdícios de recursos, permitindo que a instituição operasse de maneira mais eficiente com apenas 45% do orçamento. Ao longo do projeto, um levantamento feito pela Falconi revelou que apenas 4% das atividades realizadas nesta instituição agregavam valor significativo, com apenas 36% fazendo algum sentido. Pior: 60% não apresentavam qualquer impacto relevante.

Não é um quadro isolado – encontra-se cenários semelhantes nas mais diferentes esferas do poder público. Se fossem adotadas medidas para eliminar desperdícios, certamente seria possível impulsionar o crescimento sustentável, aumentar investimentos e melhorar os serviços prestados à população. Para isso, é necessário método, capacidade analítica e visão sistêmica.

O caminho eficaz não passa por cortes arbitrários, mas pela eliminação definitiva de processos ineficientes, otimização dos demais e pelo foco em atividades que realmente geram valor. Transformações desse tipo já foram implementadas com sucesso em diferentes governos, demonstrando que alcançar uma estrutura fiscal saudável é desafiador, mas plenamente possível.