Marcos Vilaça, imortal, imortal!

Jacques Ribemboim
Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 02/04/2025 03:00

Marcos Vinicios Rodrigues Vilaça já não está fisicamente entre nós. Partiu no sábado, 29 de março, após meses de reclusão e internamento hospitalar. Não era muito idoso, para os padrões da modernidade, mas atravessava uma fase difícil, com crises de depressão. Depois que perdeu a esposa, nunca mais seria o mesmo. Maria do Carmo fora um vínculo de amor eterno, inquebrantável. E apesar das vicissitudes, como um fazedor de milagres, recuperava ocasionalmente o seu senso de humor – humor fidalgo, típico dos espíritos iluminados.

Não iremos aqui discorrer sobre os cargos que exerceu no alto escalão, tampouco sobre as páginas de honrarias recebidas. Difícil, descrever este homem. Mais agora, depois de ter lido artigos tão belos, assinados por colegas acadêmicos. José Paulo Cavalcanti: Vilaça teve, nessa vida, uma trajetória improvável, que começou nos interiores de nosso Brasil, popular e profundo, para findar em louros acadêmicos. José Nivaldo Junior: resta aos que ficam a certeza de que o imortal agora é eterno. Fábio Lucas: sua escrita, traduzida para idiomas como inglês e francês, refletia sua conexão com a cultura nordestina. Flávio Chaves: sua ausência é como o corte de uma árvore antiga no meio do campo – fica o tronco, a sombra que ainda paira, os frutos que amadureceram por sua causa. E da Academia Brasileira de Letras, por Joaquim Falcão: Marcos estava no lugar certo no momento certo. As instituições culturais cresciam e necessitavam de líderes que fossem, ao mesmo tempo, intelectuais, pragmáticos e comunicativos.

Valho-me de Cruz e Sousa: Tu és o poeta, o grande Assinalado/ Que povoas o mundo despovoado/ De belezas eternas, pouco a pouco. E sigo com meu desabafo, daquele que lhe foi seguidor, admirador, aprendiz. Ele, que tão bem nos representou nas lides literárias, com toda a pujança, em um país que privilegia os escritores e editores sudestinos, os do “centro”, e só muito raramente concede voz aos nordestinos, os “periféricos”.

Marcos Vilaça foi o mais destacado, o mais abnegado, criativo e bem-sucedido divulgador da nossa cultura pernambucana, no século passado – resumiu Aldo Paes Barreto, em texto divulgado na internet. E tem razão. Decano da Academia Pernambucana de Letras, para nosso gáudio, ocupava a Cadeira 35. Membro da Academia Brasileira de Letras, Cadeira 26, havendo sido seu presidente por dois mandatos. Imortal, igualmente, na Academia Carioca de Letras, Cadeira 30, onde tomou posse usando emprestado o colar de Miriam Halfim, para cumprir o protocolo. Como no hino de Pernambuco, imortal, imortal! Tantas vezes imortal que, no dizer de Bandeira, parecia impregnado de eternidade.

Em seu estilo, altivo e singelo, retrucava enfaticamente quando provocado pelos amigos de fora: Pernambuco não tem mania de grandeza, ora essa! Pernambuco tem grandeza! Conhecia bem a nossa História, sabia do que falava. Com toda a elegância física e moral, desfilava nas altas rodas sociais e políticas com a mesma desenvoltura com que adentrava na mais humilde das casinhas sertanejas para comer bode assado. Aliás, foi ele quem introduziu o bolo de rolo nos chazinhos da tarde, na Casa de Machado de Assis.

Há uns anos, quando lhe solicitei um texto para o livro O Fim da Velhice, que eu organizava com a poeta Dulce Albert, entregou-me um artigo acerca da diversidade etária da ABL, desde a sua fundação em 1898. Ao acadêmico Josué Montello, que definia a velhice como uma inquilina astuta que se instala na gente para ocupar os cômodos, passo a passo, Vilaça completava sorrindo: de vez em quando penso em despejá-la, com denúncia vazia. Isso foi em 2006, já se vão quase vinte anos.

Recentemente, já em cadeira de rodas, na homenagem que lhe foi prestada pela Fundarpe, quando me aproximei para cumprimentá-lo, segurou-me as mãos firmemente e me surpreendeu com uma expressão alegre: Ribemboim, que bom ter lhe encontrado! Gostei muito do seu livro e queria lhe dizer isso pessoalmente. Referia-se à História dos Judeus de Pernambuco, editado pela Cepe. Ao brilho do seu olhar, reagi disfarçadamente com uma lágrima contida.