Diario Esportivo

Fred Figueiroa

Publicação: 17/03/2015 03:00

Da CBF ou do Brasil?


E, em meio às intermináveis discussões nas redes sociais em tornos dos protestos do último domingo, sobrou uma aresta (direta e indiretamente) para o futebol. Do lado dos críticos ao movimento que ganhou parte das ruas país, surgiu o questionamento sobre a suposta contradição de protestar contra a corrupção vestindo a "camisa da CBF". As aspas não são por acaso. A tal "camisa da CBF" até o último domingo era chamada apenas de camisa do Brasil.  No máximo, camisa da seleção brasileira. Eis que uma onda oportunista fez questão da inverter os fatores (e os valores) implícitos e históricos daquela camisa amarela. A mesma que inspirou jogadores, poetas, compositores, pintores e, principalmente, crianças. Queiram ou não - e gostem ou não de futebol - a "canarinha" é um símbolo da identidade nacional. Talvez o maior. Ou o mais popular. Ou o de mais fácil identificação. E, desde sempre, preenche a lacuna de um país que historicamente não desenvolveu a cultura nacionalista.

Abra o seu armário. Arrisco dizer que não há qualquer peça em referência às cores ou à bandeira do país que não tenha uma ligação direta com o futebol. Crescemos assim. E todos nós - despidos de qualquer hipocrisia - sabemos disso. O verde-amarelo virou quase um "termo" esportivo. Tradicionalmente é apenas durante a Copa do Mundo que as ruas, casas, carros e pessoas se vestem com as cores que representam o país. Nos protestos do último domingo havia uma orientação (ou um desejo coletivo, que seja) para se usar as cores nacionais. E a camisa do Brasil, certamente comprada às vésperas de qualquer uma das últimas edições da Copa, logicamente seria a peça mais viável. E repito: De maior e mais fácil identificação. E, em movimentos populares, identificação será sempre uma palavra-chave.

Utilizar as três letrinhas do escudo (CBF) para transformar a camisa em um manto contraditório da corrupção é um silogismo dos mais levianos. Ou oportunista. Acho que o termo se adequa melhor ao momento. Há pouco tempo, a mesma camisa foi entregue pela presidente Dilma Rousseff ao papa Francisco. Não lembro de ter lido em canto algum que era um absurdo presentear o papa com um manto da corrupção nacional. E não era. Nunca foi. Ali era "apenas" a camisa do Brasil. A mesma que vestiu políticos de todas as correntes partidárias. Inclusive a própria Dilma e o seu antecessor Lula.
A mesma que veste crianças de todas as classes sociais. Independentemente de ter ou não o símbolo da Nike no outro lado do peito. De ter sido comprada num shopping e em um dos varais que cortam as cidades em dias de Copa do Mundo. Todos que a vestem e todos que a utilizam para presentear um estrangeiro (seja o papa, o presidente de outro país ou um astro do rock) enxergam nela nada mais do que um símbolo nacional. E repito: Talvez o maior.

Quem a vestiu para ir às ruas no último domingo não é diferente de ninguém. De Dilma, de Lula, de Aécio, do Papa Francisco, de Obama, Fidel Castro, Bono Vox, Rihanna, Paul McCartney, Tom Cruise, Roger Federer, de mim e de você. Dos nossos pais ou dos nossos filhos. A camisa do Brasil será sempre a camisa do Brasil. E sempre que alguém quiser, de alguma forma e em qualquer lugar, representar o país - por qualquer que seja o motivo - irá usá-la. E, pelo visto, nem o 7 x 1 foi capaz de diminuir a relação de orgulho e identificação dos brasileiros com a velha "canarinha". E nem mesmo todos os desmandos de décadas da CBF conseguem romper de vez esta relação - apesar de já deixar algumas marcas. Inclusive esta brecha para que alguns (acredito que a minoria, pelo menos) tentassem desqualificar o movimento a partir da camisa que as pessoas vestiam.